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27 de Novembro de 2013 às 15:15:00

Entrevista com o escritor Fábio de Souza

O Portal SG traz para você uma entrevista com o escritor e psicanalista baiano Fábio Souza, sobre as mulheres do mundo. A estudante de Geografia da Universidade de Pernambuco, Jéssica Thaiane, levantou questões bastante pertinentes para nós que vivemos no século 21 acerca da liberdade sexual, padrões de beleza, mercado de trabalho, Marcha das Vadias, relações homossexuais, entre outros. Vale muito a leitura!

 

Entrevista com o escritor Fábio de Souza

 

JÉSSICA THAIANE: Sobre o movimento A MARCHA DAS VADIAS, que teve seu início no Canadá e que veio a eclodir também no Brasil, o protesto que já teve sua polêmica iniciada pelo nome sugestivo (VADIAS) e que causou bastante... Cartazes provocadores como: “danço funk sem calcinha e a boceta continua sendo minha”, “meu corpo, minhas regras” deram o que falar... O movimento defendeu o direito, a legitimidade da mulher sobre o seu próprio corpo, sobre a maneira dela se vestir e agir livremente, sem que isto gere qualquer agressão, como o estupro (que foi enfatizado). No Brasil, ele também deu margem a outros temas como o fim da violência doméstica, física, sexual. A mulher como dona de seu próprio corpo, portanto de suas partes íntimas, consegue lidar com isso da maneira ideal, sem traumas?!

 
FABIO SOUSA: Não posso afirmar que as mulheres do mundo, hodiernamente e de um modo geral, podem lidar com a repressão de uma forma ideal, ainda... Mas cabe a todos nós, através de iniciativas como esta entrevista, por exemplo, modificar este panorama acabrunhador. Se a repressão sobre a mulher no mundo se desse apenas no âmbito sexual, ela já seria algo digno de se lamentar, mas a verdade é que ela se passa em diversos aspectos, como o laboral, o intelectual, até mesmo sobre o direito de ir e vir. O fato é que nem sempre a mulher tem sido a dona de seu próprio corpo, como você me perguntou: os homens têm, de várias formas, através de um longo processo histórico, tentado e conseguido subjugar as mulheres à sua fraqueza, porque o que está por trás dessa luta nada mais é do que um medo ancestral do poder feminino de realização, ou seja, uma covardia que se disfarça em força física e brutalidade moral.
Os desavisados dirão que a Marcha das Vadias é uma caminhada de mulheres sem escrúpulos, sem propostas políticas elegantes, composta por vagabundas e daí a origem do seu nome... Não é assim: estas mulheres estão reivindicando a sua dignidade de um modo agressivo, porque foi o modo que encontraram para chamar a atenção da sociedade em geral, porque foi o modo como foram tratadas – e violentadas historicamente – por esta mesma sociedade patriarcal. Elas me fazem lembrar que, por volta da Renascença, na Europa, as mulheres estupradas eram consideradas as verdadeiras culpadas por este crime vil, pois, pensava-se, elas é que haviam despertado a concupiscência dos estupradores!...
O abuso social, quanto mais forte seja, exige um choque tão forte quanto para ser quebrado, para que se rompa com estes padrões, neste caso milenares – o que potencializa sua força. É uma pena que a conjuntura do mundo determine muitas vezes que tenha que ser assim, porque o diálogo seria uma excelente saída – mas, para que ele exista, é preciso que todas as partes estejam interessadas em conversar da forma que foi batizada de “civilizadamente”, porque, na verdade, não somos tão “civilizados” como imaginamos ser...
Então, é necessário que a humanidade desperte para o que ocorre: as mulheres não são, ainda, mesmo nas sociedades ditas democráticas, tratadas como os seres livres que são – e isso é deprimente se avaliarmos nossas conquistas intelectuais, para nós, enquanto coletividade, e para elas, enquanto vítimas deste processo. E por trás disso tudo existe o medo, a covardia dos homens e o silêncio por parte delas.
 
JT: “Será que o príncipe virou um chato?...’’ – canta Cássia Eller em uma música. Ontem, meninas que sonhavam encontrar seus príncipes encantados e fazer um bom casamento na igreja de véu e grinalda como manda o figurino; hoje, mulheres que estudam, batalham, são chefes de lares, se impõem, definitivamente estão dizendo para quê  vieram e anseiam por independência; elas estão no mercado de trabalho e muitas vezes em cargos melhores que os deles (o que irrita bastante os machões)! Isso pode ser visto na presidência do nosso país, onde o cargo de maior valia é ocupado por uma mulher. Na sua opinião, os sonhos, o modelo de ideal de vida que garotas na fase juvenil desejam pra vida adulta estão rompendo paradigmas? A mulher, no campo profissional, está sendo vista com outros olhos? Positivos ou negativos?
 
FS: As mulheres, as meninas, de um modo geral – nas sociedades democráticas principalmente – estão rompendo paradigmas em diversos setores, mas é preciso ressaltar que as conquistas atuais não são tudo, que há um campo vasto de coisas ainda por fazer. Se elas podem hoje fazer o que antigamente não faziam, que também enxerguem que isso não se deu por acaso ou por bondade dos homens, mas que é consequência de um litígio social bastante complexo que ainda encontra-se em andamento. Muitas mulheres morreram, foram presas, maltratadas biológica e moralmente – e continuam sendo – para que elas desfrutem desse pequeno prazer (porque, para quem nunca teve liberdade, colocar os braços de fora pode parecer a maravilha das maravilhas...). Mas até que ponto esta parcela de liberdade não se constitui em acordo tácito estratégico para que os homens continuem no poder, sem na verdade compartilhá-lo meio a meio, como deveria ser? Que desfrutem, portanto, da sua conquista, mas que não se enganem pensando que esta já basta.
É claro que, nas sociedades democráticas, a mulher vem ganhando espaço profissionalmente – e isso é superpositivo –, que elas estão rompendo com paradigmas machistas quando encontram brecha para isso, mas, definitivamente, ainda não é o suficiente: é preciso continuar o processo.
Você tem observado o poder realizador da mulher quando lhe é dada a faculdade de fazer? Tem visto a beleza do potencial da sua atuação na política, nas artes, nas ciências, nas religiões? O ambiente sexual dos seres humanos é composto de três sexos: machos, fêmeas e hermafroditas devem dar a sua contribuição para que ele aconteça da melhor forma.
Chegou a hora de os machos da espécie homo sapiens sapiens perceberem que seu pênis e seus testículos são tão potentes quanto a vulva e a vagina ou todos juntos.
E por falar nisso, por que os chamados símbolos fálicos não podem, sinonimicamente, serem chamados também de símbolos vagínicos?
 
JT: As mulheres questionam e querem ter liberdade sexual igual à dos homens, acho no mínimo digno e o correto. É uma questão de igualdade apenas! Sobre o machismo no Brasil, uma revista teen muito famosa destinada a garotas heterossexuais foi duramente criticada a respeito de uma matéria em que eles expõem as diferenças entre: “menina pra namorar e menina pra ficar”. Eles favoreceram o rótulo de que mulher serve “para isso” ou para “aquilo”, frisando ainda que certas garotas servem para serem usadas e depois jogadas fora. O julgamento de cada tipo de garota foi pautado nos caracteres ligados a motivos externos; as “comportadas” e que ficam com poucos caras são as pra namorar, assim opinaram alguns rapazes, e as para ficar seriam as garotas bonitas que atraem olhares na balada e que ficam com muitos caras, beijando quem elas sentem vontade; uma ao molde da sociedade e a outra atrevida e que usa de sua liberdade para fazer o que sente vontade. Venho de uma sociedade que marginaliza a região sexual da mulher até os dias de hoje, composta por homens que no passado praticamente fizeram um leilão acerca da virgindade da mulher!... A que fosse virgem seria a pura e que mereceria o respeito de um homem... A primeira transa de uma garota, e por consequência as que virão posteriormente,  sempre foram muito preocupantes se ela não tivesse um namorado fixo para praticar; o medo de ficar falada no meio social falava mais alto e esse preconceito vinha tanto da parte dos homens como das próprias mulheres; algumas garotas até hoje mentem que são virgens para serem mais valorizadas por eles e serem mais importantes no meio social. As mulheres, ao longo dos anos até os dias de hoje, estão exercendo o seu direito de serem livres?! Você acha que elas estão felizes com seu papel social perante o sexo?!
 
FS: Repare que a revista tratou as garotas como coisas a serem utilizadas de acordo com a vontade socialmente imposta pelos machos da espécie. Isso me leva à conclusão de que as mulheres não estão exercendo, de um modo geral, o seu direito de serem livres, até porque, de fato, elas não têm esse direito e acabam acreditando que só serão felizes se seguirem este modelo velado difundido pela revista em questão. E não me refiro necessariamente ao estabelecido como moralmente melhor, mas a isso: elas seguem o que realmente desejam ou são hipnotizadas para que a vontade sorrateira dos machos seja seguida? Elas estão conscientes de suas escolhas? Elas estão questionando, pensando a respeito de toda essa manipulação velada? Isso é consciente? Depois destes questionamentos, chego à conclusão de que o moralmente melhor seria que elas tivessem liberdade de escolher, e, depois, que lhes fosse dado o espaço de problematizar sobre isso tudo, de dialogar e expor suas opiniões.
Dentre todos os medos que os homens sentem perante as mulheres – e por isso a necessidade que também sentem de um modo geral em subjugá-las, seja boicotando o desenvolvimento de sua força orgânica ou moral – o maior de todos eles é o de sua liberdade sexual. Este é um perigo dos mais fortes, um sinal vermelho que acende e assusta tanto que é extremamente difícil para nós conceder-lhes, depois de milênios de esforço, o direito de fazerem de sua genitália o que bem entenderem. E as mulheres ainda não perceberam que basta um esforço pequeno diante do tempo de todo este processo para que tudo isso venha abaixo e que os homens sejam colocados em seu devido lugar – o de pares e não de algozes.
Definitivamente, nenhum ser humano pode ser feliz sendo privado da liberdade de desenvolver plenamente o seu potencial e a sexualidade, neste âmbito, exerce um poder de suma importância.
 
JT: A mulher e os nossos padrões atuais de beleza... Vivenciamos hoje na sociedade um desregramento causado pela mídia que adotou um corpo modelo, o que agravou alguns pontos negativos como os transtornos alimentares (anorexia e bulimia, por exemplo...) e o fenômeno bullying, que sempre esteve entre nós. Pais que se deixam levar pelo molde midiático e abalam ainda mais a vida de seus filhos os perseguindo para que eles se enquadrem no padrão estabelecido, mesmo diversas vezes sem ter em mente o mal que estão provocando. O que dizer às garotas/mulheres que não foram fortes o suficiente e deixaram-se contaminar pela raiva e o desespero em relação à sua aparência e a imposição social com relação à mesma?
 
FS: Tenho a dizer-lhes que lamento muito que isso tenha acontecido se elas não puderam estabelecer uma relação crítica com o que é veiculado pela mídia, porque não podemos demonizar a mídia – ela é apenas um veículo, necessário inclusive ao desenvolvimento do mundo. Quem faz os conteúdos veiculados pela mídia é que detém a responsabilidade pela feitura deles. A mesma mídia que hipnotiza os incautos, fazendo-os seguir padrões impostos de modo diversas vezes idiota, também pode educar e muito. A diferença é colocada por quem faz o conteúdo midiático. O exercício da crítica do que nos chega desenvolve nossa inteligência.
A concepção de beleza difere de pessoa para pessoa, embora possamos olhar algumas e dizer que elas são atraentes, sexualmente ou não. É bom, é gostoso nos relacionar com alguém que consideramos apetecível corporalmente, mas será que isso é tudo? E se essa pessoa for apenas gostosa e nada mais?... E é bom lembrar que o nosso olhar a respeito da gostosura das pessoas depende da constituição biopsicosócioespiritual de cada um de nós...
A escravidão deve desaparecer, em nós, neste aspecto, a começar da nossa mente.
 
JT: Sobre a homossexualidade entre elas, a união afetiva entre mulheres ainda é vista com muito preconceito. Na Rússia, uma lei aprovada pelo parlamento proíbe "propagar relações sexuais não tradicionais" e impõe multas a quem promover passeatas do orgulho gay. No Brasil, existe uma falsa conduta perante o preconceito dissimulado, porque vivemos uma fase em que demostrar preconceitos virou antiestético. Em contrapartida, surge a hipocrisia que a cada dia que passa demonstra o quanto veio pra ficar, recheada de falsos moralismos que infelizmente começam em casa com pais autoritários e chantagistas que provocam verdadeiros danos nas vidas de seus filhos. A igreja, por sua vez, não fica atrás: a comunidade gay e ela ainda não fizeram as pazes e agora aparece também deputado/pastor metido a curandeiro com suas falas bizarras... Ironias à parte, o nosso sistema civil está se moldando aos novos arranjos familiares: uma estrutura composta por duas mães e filhos, por exemplo... Na sua opinião, a sociedade já está pronta pra encarar de uma vez por todas o que existe conosco desde de sempre: a homossexualidade feminina? E como combater esse preconceito vil, dia após dia, sem se deixar abater?!...
 
 
FS: Sabe, Putin e os conservadores russos deveriam experimentar uma relação homossexual! Far-lhes-ia um bem imenso!... Talvez, através deste novo movimento de suas energias psíquicas, suas inteligências também se desenvolvessem mais...
 
Sobre a falsa conduta a que você se refere, ela é ridícula porque hipócrita, mas já é também um avanço, apesar de tímido... Mais tarde, daremos outros passos à frente.
 
A resposta é não: a sociedade mundial ainda não está pronta para encarar de bom modo a homossexualidade feminina: é necessário prepará-la para isso, inclusive tornando públicas estas uniões e promovendo leis que protejam os homossexuais e bissexuais. Mas a homossexualidade feminina, apesar de execrada pelo contexto atual do mundo, conta com uma vantagem em relação à masculina: enquanto dois homens que se relacionam sexualmente se tornam uma ameaça radical ao sistema patriarcal, duas mulheres que fazem sexo podem se tornar excitantes para diversos machos da espécie. Não que dois homens transando não sejam igualmente excitantes para eles: é que, enquanto estes despertam o desejo e abalam a frágil masculinidade do mundo, imposta de forma historicamente medíocre, aquelas são mais aceitas nas mesmas condições, desde que colocadas, é claro, em situação de diferenciação a respeito das “outras” para “casar”, como você citou antes.
 
Como combater este preconceito: afirmação social sem medo de ser feliz, através de todas as formas possíveis. Trabalhar para que a democracia se torne, universalmente, um direito natural. Não que ela não possua falhas e até controvérsias ontológicas, mas porque, na minha modesta opinião, não conseguimos ainda inventar sistema político melhor.
 
JT: Agora, sobre o projeto que visa a legalização do aborto e propõe tratar a questão como de saúde pública em vez de prática criminosa. No mundo ocorrem milhões de abortos clandestinos ao ano, a prática é decorrência da gravidez interrompida por mulheres que não fizeram planos, engravidaram contra a vontade. Muitas acabam morrendo ou trazendo consigo sequelas para a vida toda, o que tem implicações nos seus planos futuros de reproduzir. Nós temos uma bancada religiosa de parlamentares que é a favor da vida em qualquer circunstância e que trata do aborto como assassinato. A discussão se acirra ainda mais porque, de um lado, há quem diga que não há vida na concepção, portanto, não existe problema; há também quem defenda a legalização ferozmente, como uma parte das mulheres feministas, que recentemente fizeram um protesto pela descriminalização do aborto em frente a uma igreja de uma maneira que para alguns foi tido como um protesto ofensivo (havia frases como: ''Tire sua cruz da minha vagina.''; ou ''Tirem seus rosários dos nossos ovários.''). Em meio a tanta polêmica, você é a favor ou contra a legalização do aborto? Se contra, na sua opinião, qual seria uma boa intervenção política para o problema?
 
FS: Na verdade, por mais contraditório que possa parecer, a bancada evangélica chegou a defender e legalização do aborto...
O sexo deve ser prazer, mas também é responsabilidade. Você transa, mas também sofre as consequências de sua transa e estas podem ser boas ou ruins a depender do que ocorre e da maturidade de cada um. Uma gonorreia, ou a AIDS são ruins, apesar de tornarem-se um aprendizado para quem as contrai, mas um filho só é ruim quando não se tem maturidade suficiente para encará-lo de outra forma.
Você pode me perguntar: e os casos de gravidez por estupro, por exemplo? Eu direi: aí também entra a maturidade.
Porque o aborto me remete a duas questões éticas importantes: os cientistas ainda não conseguiram estabelecer de modo pleno quando começa a vida; depois, quando se tem uma pessoa dentro de você, crescendo, você está falando sim de seu corpo, mas também do corpo de um outro ser...
Assim, sou contra o aborto a não ser que a gravidez ponha em risco a vida da mãe. Mesmo no caso dos anencéfalos, pois as crianças anencéfalas podem viver anos após o nascimento. Aliás, o caso dos anencéfalos me reporta à questão anterior, a respeito da beleza: queremos assassinar os fetos anencéfalos algumas vezes não porque não viverão, mas porque não se encaixarão aos padrões que estabelecemos como belos e ideais; agindo deste modo, não nos diferenciamos muito dos índios que enterram vivas as suas crianças com algum tipo de necessidade especial – é por isso que afirmo que pensamos que somos, mas na verdade não somos tão civilizados assim... Isso nada mais é do que pura racionalização. Freud explica.
Uma boa intervenção política seria o banimento da hipocrisia sexual e portanto uma reforma no modo de pensar da humanidade. Uma educação sexual, através de todos os veículos existentes, destituída destas hipocrisias, aniquilaria uma boa parcela do ideário que nos motiva a certos deslizes, e, consequentemente, todo o aparelho social se moldaria para que a plenitude humana fosse conquistada neste aspecto.
 
JT: A mulher integrando o espaço social como figura religiosa nos regimes islâmicos totalitários, acorrentadas ao fundamentalismo, sofrem verdadeiras crueldades; meninas que são proibidas de ir à escola, mulheres restringidas de andarem nas ruas sozinhas, algumas que passam fome por seus maridos terem morrido e elas serem impedidas de ingressar no mercado de trabalho em prol do seu próprio sustento, mulheres que são espancadas... A burca, que no seu significado e a maneira de ser usada mais me parece uma corrente de segurança máxima entrelaçada, cobrindo parte do rosto e escondendo os cabelos, pois em hipótese alguma ele poderá sair de lá se ela estiver na presença de outros homens... Dedos que serão decepados se as unhas forem pintadas, porque a vaidade entre elas é uma coisa que não se pode nem cogitar! Aos olhos de Alá no livro sagrado ALCORÃO, homens e mulheres são iguais, o que tende a ser contraditório... Nós, do mundo ocidental, ficamos perplexos com tantas coisas horríveis! Fica claro que uma parte do mundo muçulmano precisa de uma reformulação cerebral. Até quando mulheres vão ser expostas a tanta crueldade, isso terá um fim?!... 
 
FS: O fundamentalismo islâmico necessita, sim, de uma reforma intelectual, mas não se engane pensando que apenas eles: a cúria cristã mundial, de todas as denominações religiosas, também necessita de uma reforma intelectual ampla... Na Igreja Católica, por exemplo, as mulheres não podem exercer o papado. A herança judaico-cristã é patriarcal e responsável também pelas agruras que as mulheres têm de suportar diariamente. Não podemos pensar que se trata de algo localizado nesta ou naquela cultura: é um modus vivendi e um modus operandi difundido pela humanidade inteira! Estes padrões sorrateiros serão encontrados tanto em Nova Iorque quanto no Paquistão, apesar de assumirem formas diversas às vezes.
O que mais me choca é que os cristãos que comandam os cérebros das massas (uma minoria esperta) não seguem a Jesus, que deveria ser o seu modelo e guia: o poder temporal, historicamente, é o que tem movido suas ações e as pessoas hipnotizadas e escravizadas não podem, é claro, criticar livremente estas ações contraditórias...
Vemos, então, que as contradições não são privilégio do mundo islâmico.
Tudo isso vai ter um fim!... Os machos da espécie homo sapiens sapiens ainda não perceberam que estão num processo de autossabotagem progressiva e irreversível. A conquista da inteligência possui seu ônus, mas também a sua glória!
 
JT: No que se refere aos direitos humanos, a legislação de proteção à mulher funciona? Você acha que precisamos de alguma reforma?
 
FS: Quando ela existe, funciona como um veículo de autoafirmação e tende a se cumprir mais cedo ou mais tarde. O problema é que em diversos países ela simplesmente nem é cogitada.
Necessitamos de todas as reformas mundiais cabíveis para fazer valer o direito das mulheres e este deve ser um foco de todos aqueles que anseiam por um planeta melhor para a humanidade inteira.
 
JT: A mulher no campo artístico contribuiu muito ao longo dos séculos. Quais foram as suas musas inspiradoras, na arte, na vida?
 
FS: A arte e a vida, em verdade, para mim se entrelaçam e se confundem, pois não consigo dissociar a minha vida da arte que produzo.
Tive e tenho diversas musas: minhas quatro mães (ontem ganhei mais uma); amigas de ontem, de hoje e de sempre; mulheres com quem namorei; minha esposa; Madonna, de quem sou fã desde cinco anos de idade mais ou menos; Hipátia... Quero também ter uma musa: uma filha, que viva num mundo melhor para as mulheres, onde ela possa desfrutar de dignidade por ser humana em todos os apectos.
Tive e tenho também inspiradores homens, mas este é um tema para nova entrevista...
 
 
  Jéssica Thaiane, estudante de Geografia da Universidade de Pernambuco.
 
 
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